Biblioteca - Artigos - As Empresas no Brasil e a Cultura Tecnológica: a Internet, os avanços e as universidades corporativas
1. INTRODUÇÃO
Este artigo se propõe a estudar o cenário geral das empresas no Brasil que, em algum momento se dispõem a introduzir o treinamento a distância , em qualquer mídia que seja: CD Rom, vídeo, TV, mídia impressa e outros. Analisaremos o impacto que esta cultura tecnológica tem ao invadir o ambiente corporativo e forçar as empresas a mergulharem nesta fase do processo de globalização e inovação, não só de equipamentos, mas da cultura geral como um todo.
Ora, o homem necessita renovar seus conhecimentos, trocar idéias, compartilhar o tempo todo num exercício mental de arejamento e reciclagem e aprendizagem constante, especialmente no ambiente corporativo, onde já discutimos o papel do estudante profissional. Para atingir esta massa de trabalhadores, no segmento que for, a mídia é importante e a mediação tem um papel mais nobre ainda, pois um não pode sobreviver sem o outro. A pergunta- chave que será perseguida neste texto é , então, como transpor as barreiras culturais e tecnológicas para que a mídia e o meio possam circular livremente dentro de um ambiente empresarial?
Iniciaremos definindo a palavra cultura, pois ela irá guiar nosso raciocínio: cultura vem do latim cultivar o solo. Do ponto de vista filosófico, cultura seria morada do espírito, ou algo que cresce naturalmente. Ninguém diz " vou adquirir cultura" , ela simplesmente está encarnada no ser humano e entra através da herança genética, do sistema cognitivo, pelo aparelho sensório.
Da mesma forma, a tecnologia é, além de um signo que cresce rapidamente e nos envolve nos seus longos tentáculos pegajosos e firmes, a tecnologia faz parte de nossa vida diária, queiramos ou não, assim como move os processos, procedimentos e modo de ser de uma organização.
Se pensarmos no "homem plugado" , paradigma do novo século, teremos o homem totalmente conectado ýs máquinas, ativo pela mão que se torna uma extensão da mente imersa no sistema tecnológico complexo que o molda. De repente não há mais opção do ponto de vista tangível e físico, mas de que forma o homem comum e mortal, criado em outra cultura que não a tecnológica, tendo dedicado sua vida a um trabalho numa empresa também não avançada para os modelos de hoje, consegue introspectar, deglutir e digerir toda esta nova parafernália, sem passar por uma crise de identidade, entendimento, estranhamento e reencontro consigo mesmo e com as máquinas, ou no sentido mais genérico e correto, com a tecnologia?
2 . DNA corporativo
As empresas também têm um DNA corporativo intrínseco ao seu sistema gerencial e uma alma, inegável, que rege seus processos e sua estratégia de sobrevivência. De uma forma geral, a herança genética resultam do DNA dos seus fundadores, do seu idealizador, e não do grupo de investidores; porém a tarefa de conduzir a orquestra num tom afinado e compassado, fazendo com que todos os seus elementos estejam alinhados com a cultura que se impõem, é uma tarefa longa, mas que irá garantir a sobrevivência empresarial. O fator positivo desta história é que o brasileiro, de uma forma geral, segundo Canclin em Culturas Híbridas, tem a capacidade de absorver outras culturas como se fosse dela própria. Tal fato traz uma vantagem competitiva enorme ao povo brasileiro e latino-americano, tal a receptividade tanto à novos produtos e lançamentos, como a outras culturas.
Mas o que tudo isso tem a ver com a importância e a efetividade da Educação a distância como ferramenta de ensino para o século XXI? Apresenta-se como uma quebra de paradigmas na aprendizagem corporativa e que atua fortemente na formação do profissional através da cultura da educação permanente, através de métodos não somente presenciais e utilizando-se de tecnologia em sentido amplo e massificada. Este impacto do treinamento a distância em detrimento do treinamento presencial no aspecto da ação do "transferidor da Informação" - o instrutor que sai do altar soberano de detentor máximo do conhecimento e passa a utilizar a tecnologia como aliado nos processos de comunicação com o indivíduo, mudando as regras e o estilo de aprendizagem, impacta forte e diretamente nos níveis de retenção do conhecimento por parte do "aluno". A informação já não pode mais ser filtrada e interpretada de várias maneiras. O processo de semiose aparece com uma outra foca que independe do facilitador, mas recai onde sempre deveria ter estado: no interpretante ativo e dinâmico do processo de aprendizagem.
A cultura é organizada pela linguagem, através do texto e é parte do ambiente contextual onde se insere o homem, retomando conceitos básicos de tradição e civilização. Há uma nova cultura de ensino que se alia à tecnologia que a suporta e facilita, causando uma quebra de paradigma não só na nova proposta de mudança de atitude, mas na cultura geral da empresa em questão, pois a responsabilidade passa a ser compartilhada e cada um responde por si, no nível individual e todos por todos, no nível corporativo. Por outro lado, a dita cultura global entra em discussão, talvez não a globalização da economia e a rapidez das inovações tecnológicas que exigem um esforço enorme da formação profissional, fazendo com que empresas invistam mais em programas de EAD como forma de minimizar custos, uniformizar as informações, envolver a cadeia produtiva de valores, assim como oferecer informação sempre disponível 24 horas por dia. O que chama a atenção para a cultura global é a austeridade de países excêntricos com suas culturas locais. Do ponto de vista semiótico, a identidade de um povo é sígnica, ou semiótica, não é verbal, levando a uma desterritorialização das culturas locais.
O ser humano é investigatório por si só e necessita de fomentos à sua investigação pessoal.
Não se difere sua atitude em ambiente de trabalho e pessoal, pois os dois seres se misturam, porém diferem as expectativas que ele tem do que a empresa onde ele trabalha pode lhe oferecer. O homem abre, o tempo todo, espaços cognitivos virtuais para novas aprendizagens e necessita que sejam preenchidos de alguma forma, definindo os eixos do seu processo pessoal: o que entra e o que sai, o que fica dentro e o que fica fora. A partir disso, podemos localizar o ciberespaço e a Internet na vida desse sujeito, como uma ferramenta que pode ser vista, que cria formas, que lhe abre possibilidades, levando-o a ominivisão, ou a visão absoluta do todo através da tecnologia, por exemplo. A natureza do saber é virtualmente infinita e o conhecimento tem um recorte pluridimensional. Há um mundo disponível na web, onde o saber está disponível, transparente, bidirecional. Neste ambiente de ciberespaço, o indivíduo coloca a sua questão, sem exercício de poder, simplesmente compartilhando com outros que compõem a sua comunidade virtual de aprendizagem e discussão. A criação de microcomunidades corrobora a cultura tecnológica, onde o indivíduo sai da mesmice, saindo do censo comum e discutindo assuntos de interesse super específico para um determinado grupo. As pessoas são atraídas par alianças, por interesse no assunto, por encontrarem eco para as suas questões, por encontrarem um local de troca. O benefício visível que a empresa e os indivíduos podem ter é que as ações usam o sistema coletivo, ou seja, o benefício é individual (ou da empresa num determinado aspecto), mas a discussão e a decisão foram coletivas; além de que o indivíduo disponibilizará mais tempo quanto mais interesse ele tiver e mais ajuda ele obtiver dessa comunidade. Dentro do processo de aculturação, a empresa tem que convencer os seus indivíduos de que o sujeito que está ao lado dele, virtualmente, que seja, tem algo importante a oferecer e trocar.
3. Como encaixar estas questões filosóficas com a tecnologia e o ambiente empresarial?
É inegável a interculturalidade dos povos, porém também é fato alguns discursos absolutamente dispersos da realidade e pulverizados a tal ponto que a própria visão do sujeito distorce o sentido que as pessoas tem da cultura em si. O consenso desta discussão esbarra nos sentidos da cultura, onde cultura é aprendizagem, é algo que se cultiva e que cresce física e espiritualmente, permitindo adaptação humana ao ambiente natural. Do ponto de vista tecnológico, da cultura tecnológica, o ciberespaço - tomemo-lo como exemplo, pode ser interpretado como um mundo artificial ou irreal, mas também como material (Santaella), pois é desenvolvido e criado pelo homem, apresentando-se como um prolongamento da capacidade simbólica do humano. Vale citar Lacan para exemplificar o ciberespaço : " sou onde não estou e estou onde não sou, posso ser se falo" .
Como toda teoria, a teoria da cultura tecnológica neste ambiente corporativo também deve sustentar a realidade, do contrário seria apenas exercício de adivinhação a " achismos" . A tecnologia atual que estamos tratando foi fomentadora da crise de transformação profunda de hegemonia das culturas de massa, mas no ambiente corporativo a realidade é outra, pois as empresas não se colocam nas massas e não tem a velocidade de transformação e agilidade que um indivíduo possa ter. Por mais que perceba e entenda o momento e as necessidades, as ações não correspondem aos pensamentos e desejos, levando à uma dissonância cognitiva enorme que leva a uma frustração por parte dos colaboradores e um aumento do índice de turn over, e conseqüentemente um ROI diminuído. Isso fica claro quando pesquisas são apresentadas mostrando que os funcionários trocam de trabalho, não pelo fator salário, mas por oportunidades de ascensão, mais condições de progresso individual do ponto de vista de reciclagens, cursos, domínio sobre a própria carreira e empresas mais tecnologizadas, permitindo-lhe maior domínio do negócio e independência profissional, onde o desejo é ser uma unidade de negócios dentro da própria empresa.
Para que as empresas alcancem este estágio cultural e tecnológico, e ao final, ambos juntos, talvez seja preciso desconstruir sua cultura para reconstruí-la de outra forma. As mudanças são sempre traumáticas e o processo lento. Não é só uma questão de budget e compra de equipamentos, mas a forma como tudo isso será incorporado efetivamente ao ambiente de trabalho: reuniões por videoconferência, treinamentos a distância via web, sistemas integrados on line, planejamento de carreira em programas de soft skills, controle operacional on line, geração de relatórios em arquivos comuns pela rede, grupos de discussão e trabalho em ambientes colaborativos virtuais, jornal on line, telefones inteligentes, videofones, entre outras possibilidades.
Todas estas sugestões seriam pertinentes, não fosse o problema básico da proporção de microcomputadores por habitante e outros dados demográficos já discutidos anteriormente.
O problema crônico que se discute aqui me que precede a cultura tecnológica é a presença dos aparatos, propriamente ditos: não há computadores suficientes nas empresas; não há acesso à internet na maioria das vezes ( por polices internacionais) e o acesso, quando há é restrito a intranet. Estaria tudo bem se pudéssemos abstrair o modelo de intranet de um modelo Rede Globo, por exemplo, onde alguém dita para todos os outros o que eles devem vestir, ler, assistir, estudar, negando-lhes o acesso ao mundo como um todo, deixando que cada um persiga e faça o seu próprio roteiro de aprendizagem e mergulho no mundo do ciberespaço. Quem pode dizer qual o melhor caminho para unir dois pontos, num tema que não se trata de geometria analítica, porém quiantica?
Algumas empresas, e a maioria delas no Brasil, infelizmente ainda adotam este sistema e a cultura tecnológica que está bem longe de ocupar o espaço que deveria.
4. EAD propriamente dita
No assunto educação a distância, o disparate é maior quando se vê que as empresas anunciam programas de ensino on line, porém sem divulgar oco o fazem, pudemos verificar através da participação em seminários de e-learning no ambiente corporativo, que o avanço tecnológico e a forma como estas empresas divulgam sua cultura é através de alguns cursos em CD Rom, ou treinamento de novos softwares, via tutorial nas próprias máquinas, o ainda em vídeos durante o expediente de trabalho enquanto fazem alguma outra coisa. Não é objeto desse estudo discutir modos ou estilos de aprendizagem, mas fica clara a confusão total e os erros conceituais em termos de interatividade, atenção, efetividade de métodos, introspecção, pensamento crítico e outros. Desponta claramente ao leitor atento que estas medidas cosméticas têm a função de mostrar ao mercado que algo está sendo feito, sem se importarem muito com o quê, como, por quê e para quem, resolvendo um problema das empresas muito comum que é justificar seus orçamentos, livrar-se do problema treinamento dos funcionários e inventar novas técnicas sem as dominarem muito bem.
O resultado claro parece ser uma falsa cultura tecnológica, um autoritarismo digital, digamos assim, e um afastamento das oportunidades que a globalização e os meios trazem par ao indivíduo.
A realidade brasileira das empresas e das Universidades Corporativas é a que se mostra, onde nem sempre os recursos tecnológicos estão disponíveis para todos, assim como o acesso à Internet, dificultando o EAD via Web. O desafio então, é usar de bom senso, imaginação e inovar sempre. Criar programas de auxílio à compra de computadores, renovar os escritórios, usar home offices - tudo é válido desde que o fim seja levar o conhecimento para onde haja alguém interessado em desfrutá-lo.
Cabe outra questão: qual a forma mais adequada e eficaz de disponibilizar este conhecimento pelas corporações, introduzindo o conceito tecnológico e aculturando o indivíduo, validando a importância da EAD on line, pois a Internet já está dentro da vida de cada um individualmente : reduzindo fronteiras, otimizando tempo, maximizando resultados com o mesmo recurso.




